Cruzando Fronteiras  - Mayra Martell

Joana Mazza

A suspensão do tempo nos espaços de afeto: o desaparecimento de mulheres na Ciudad Juarez, México.
Diana Rocío Ramírez Hernández, 18 anos. Desapareceu em 1 de abril de 2011. Mayra Martell

Diana Rocío Ramírez Hernández, 18 anos. Desapareceu em 1 de abril de 2011. Mayra Martell

A moradia é o lugar da existência, da permanência e da espera. Também é o lugar onde se alimentam os vínculos de afeto e da família, onde se materializa o encontro entre o íntimo e a memória através da exposição de objetos carregados de recordações e da personalidade de seus habitantes.  No caso dos ambientes registrados em “ensaio da identidade da fotógrafa Mayra Martell, os ambientes apresentam a permanência da existência de jovens e mulheres desaparecidas na emblemática Ciudad Juarez no México.

A esperança e a resistência das famílias das vítimas de violência de gênero são apresentadas através dos registros da cuidadosa preservação da moradia e do espaço de afeto, onde o espaço íntimo guarda a permanência da presença destas vítimas. Estes ambientes não só apresentam o retrato e a história de seus moradores, mas também o retrato de uma sociedade e de sua condição violenta e corrupta. A ausência dos corpos que habitam cada um destes espaços apresenta uma profunda realidade sobre o corpo da mulher como espaço de disputa: De um lado temos suas famílias, invisibilizadas e múltiplas, por outro temos uma sociedade cúmplice no cruel destino destes corpos em seu sentido mais profundo.

 

Martell não apresenta a violência em si, mas a resistência contra ela. Esses quartos não estão vazios, estão cheios de recordações, rastros de personalidades, o último fio da permanência de cada vítima. A cuidadosa preservação destes espaços é inevitavelmente a primeira arma destas famílias a não aceitarem a destruição destas existências. Por outro lado, estamos diante da normalização social da crueldade e da atuação da cultura do patriarcado em seu nível mais extremo, com a apropriação do corpo das mulheres e sua transformação em colônia levada até a última consequência.

Creo que fue el tiempo y la manera de comportarse en la gente que espera lo que más me llamo la atención en las escenas, es como si sucediera diferente, como si hubiera suspendido con las personas. Toda esa nostalgia contenida en los espacios, es como si cada objeto tomara mucha fuerza porque son elementos testigos de que la persona existió. Martell

Metas de Erika Carillo, 19 anos. Desapareceu em 11 de dezembro de 2.000, ela era estudante de engenharia civil. Mayra Martell

Metas de Erika Carillo, 19 anos. Desapareceu em 11 de dezembro de 2.000, ela era estudante de engenharia civil. Mayra Martell

Esses corpos desaparecidos não foram somente vítimas de sequestro, estupro, tortura, tráfico de pessoas ou órgãos. Esses corpos foram vítimas do extremo de uma sociedade que usa o corpo feminino como um território de poder. São ações de um poder soberano sobre o outro, que aniquila sua vontade, usa seu corpo como objeto e o descarta como lixo. Estes preceitos são confirmados pelo caráter de femigenocídeo que se aplica a esta cidade a partir dos anos 90, em cujas investigações até hoje não alcançaram desvendar as causas e os verdadeiros culpados desses crimes que possuem numerosos elementos em comum.

O ensaio de Martell trata da escrita no corpo social das mulheres e podemos considerar que não se restringe apenas a condição da cidade de Juarez. As desaparecidas, violadas e torturadas, são a extremidade mais radical da fraternidade masculina paraestatal, que utiliza os corpos femininos para ascender em seus projetos de poder. Estas imagens buscam alimentar uma contraposição frente à insensibilização social com relação as vítimas, nutrindo com afeto o vazio da injustiça.

Sobre los detalles de personas desaparecidas, pues recuerdo algunas cosas de cada lugar, los olores, los cubrecamas, los álbumes de fotos, el olor de cuando la madre abría su closet para mostrarme la ropa de su hija, las calcomanías pegadas en algunos lugares del cuarto, que había cosas que yo también tenía en mi habitación a esa edad, los tocadores de la habitación con perfumes, un cepillo, y cosas así que todas tenemos a esa esa edad. Martell

Mayra Martell nasceu em Juarez, México, em 1979. Se autoproclama como uma fotógrafa por acaso, já que a psicologia é sua formação original. Posteriormente, através de sua colaboração para a área de cultura de um jornal local, levou-a a formar-se no Centro Nacional de las Artes no México. Desde então se dedica à fotografia, em especial aos ensaios documentais. A autora iniciou o projeto “Ensaio da Identidade” em 2005 e segue até o presente momento, neste período acompanhou e fotografou mais de 175 casos.

Los primeros casos de mujeres que documenté, curiosamente, tenían mi edad. Visitar sus habitaciones me hacía recordar a mí misma hace algunos años. Las madres me miraban largo rato y me hablaban de sus hijas como si fuera una vieja amiga. Yo intentaba construir una imagen, reincorporar recuerdos para conocerlas.  Martell

A pesar de não haver fontes seguras dos números de vítimas, segundo dados da rede integrada “Mesa de Mujeres de Ciudad Juarez”, entre 1993 e 2015 somam-se um total de 1.459 casos. Destes, somente entre 2007 e 2013 somam um total 70% e concentra neste período os índices mais altos. Dos casos acompanhados por Martell, apenas 30 corpos foram encontrados e cerca de 10% dos casos tiveram os culpados identificados.

Martell se aproximou das famílias através dos cartazes com avisos de desaparecidas que estavam colados pela cidade e em alguns casos, através de procuradoria que acompanha as investigações. Em 2009, foi obrigada a deixar a cidade e mudar-se para México DF, passando por um período no hotel Milan até conseguir um apartamento. Até hoje seu regresso a Juarez é um tema delicado e requer cuidados especiais. Apesar disso ela segue acompanhando as famílias e registrando novos casos.

A seguir, alguns casos relatos por Martell:

Adriana Sarmiento

Conheci Dona Ernestina, mãe de Adriana Sarmiento, que desapareceu com então 16 anos em 18 de janeiro de 2008 no centro da cidade. Fiz duas entrevistas, a primeira em março de 2009 e depois em 2012. Os restos mortais de Adriana foram encontrados no riacho Navajo, nos arredores da Ciudad Juarez, junto com outros 25 corpos de mulheres que desapareceram no centro nas mesmas datas que Adriana.

Erika Carrillo

Erika tinha 19 anos e era estudante de Engenharia Civil. Desapareceu em 11 de dezembro de 2000, foi um dos primeiros casos que fiz. Era uma situação estranha porque estava apenas começando e eu não sabia que perguntas fazer, mas Hortênsia, a mãe de Erika era muito maternal comigo, foi um primeiro encontro muito legal, eu lembro que o quarto de Erika cheirava a algo doce, era como se o seu aroma permanecesse ali. Nós coincidimos em idade, então Hortênsia me fez todos os tipos de perguntas sobre minha vida, eu senti como se fosse uma constelação familiar, eu ainda tenho contato com ela até hoje, é uma amizade muito forte e eu sou muito grata.

Monica Castillo

Monica desapareceu na segunda-feira 18 de outubro na Ciudad Juarez aos 18 anos de idade, era de Gomez Palacio, Durango. Ela morava na cidade fazia seis meses com sua mãe, Carmen Castillo, que trabalhava como empacotadora em uma loja de supermercado. A última vez que Carmelita viu sua filha foi na manhã de segunda-feira, quando ela estava saindo para o trabalho às 11 da manhã. Após 6 meses do desaparecimento de Mónica, em abril de 2011, Carmelita foi chamada para fazer o exame de DNA na Procuradoria Geral.

Em 27 de setembro de 2011, um dia antes do aniversário de 19 anos de Monica, o Ministério Público comunica e informa Carmelita que sua filha está entre as ossadas encontradas no km 58 de Porvenir, no riacho Navajo fora da cidade. Carmelita não quer ver o que eles lhe dão, porque os restos estão em uma caixa fechada, mas eles mostram as fotos de alguns pertences e ela reconhece um sapato e as calças da filha. A causa da morte foi um golpe na cabeça. Monica foi o primeiro FNI (feminina não identificada), e lhe foi atribuído um número. Até agora há 26 corpos encontrados no riacho Navajo, e depois de vários anos de pesquisa tornou-se conhecido que essas meninas foram vítimas de uma rede de tráfico. Eles tiveram as meninas trancadas em um hotel, o hotel verde, e eles fizeram com que elas se prostituíssem e vendessem drogas, as levaram com os detentos da cadeia estadual e municipal e depois de alguns meses eles as mataram e corpos foram jogados no vale da Ciudad Juarez. Em 2015, o primeiro julgamento foi realizado contra 5 membros deste grupo criminoso e eles receberam 697 anos de prisão, no entanto, as pessoas mais importantes por trás desses eventos criminais não foram julgadas e seguem em liberdade.

Roupas de Erika Carillo, 19 anos. Desapareceu em 11 de dezembro de 2.000, ela era estudante de engenharia civil. Mayra Martell

Roupas de Erika Carillo, 19 anos. Desapareceu em 11 de dezembro de 2.000, ela era estudante de engenharia civil. Mayra Martell

Retrato falado de Neyra Cervantes, baseado na memoria de sua mãe. Mayra Martell

Retrato falado de Neyra Cervantes, baseado na memoria de sua mãe. Mayra Martell

Anita desapareceu com 9 anos em 18 de Março de 1999. Mayra Martell

Anita desapareceu com 9 anos em 18 de Março de 1999. Mayra Martell

Griselda Muroa López, 16 anos. Desapareceu em 13 de abril de 2009 no centro da Ciudad Juárez. Mayra Martell

Griselda Muroa López, 16 anos. Desapareceu em 13 de abril de 2009 no centro da Ciudad Juárez. Mayra Martell

Álbum de Erika Carillo, 19 anos. Desapareceu em 11 de dezembro de 2.000, ela era estudante de engenharia civil. Mayra Martell

Álbum de Erika Carillo, 19 anos. Desapareceu em 11 de dezembro de 2.000, ela era estudante de engenharia civil. Mayra Martell

Para saber mais: http://mayramartell.com/


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Joana Mazza é curadora, produtora cultural, artista, especialista em fotografia latino-americana. Atualmente está cursando o mestrado em arte, pensamento e cultura latino americano no instituto de estudos avançados IDEA da Universidade de Santiago do Chile. É formada em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ e pós graduada em fotografia pela Universidade Candido Mendes. Entre suas principais atividades destacam-se a coordenação de exposições do FotoRio (edições de 2003 a 2009), a coordenação do Programa Imagens do Povo (2010 a 1003) e da Escola de Fotógrafos Populares de 2012 (Observatório de Favelas), e como curadora assistente no MAC de Niterói (2013 a 2015).

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Ana DallozComment