Léo que tira foto e os caçadores de pipa do Jacarezinho

Por Luiz Baltar

Não dá para pensar em fotografia popular, sem falar de alguns fotógrafos que atuam em periferias e produzem documentações necessárias para a democratização das narrativas visuais que se constroem do Rio de Janeiro. Artistas que oferecem um olhar estético voltado para questões importantes na luta por direitos e comprometidos não apenas em dar visibilidade e voz, mas principalmente em fazer junto.

Para falar sobre o trabalho de Léo Lima é preciso, antes de tudo, conhecer o Azul. A comunidade fica no topo do Jacarezinho. Natan, cria do Jaca ensina a chegar: “Algumas poucas linhas de ônibus passam pelo Jacarezinho... Tem a linha de trem também que passa, mas que é um pouquinho complicado... Tem o Metrô que te deixa distante, em Maria da Graça... A melhor opção é chegar de moto táxi, barato e rápido. Sobe o pistão, pega a apoteose e cai na caixa d’água”. O Moto Táxi é a maneira que o favelado inventou para ter direito de se locomover, de vencer as dificuldades impostas pela topografia e pelo falta de transporte público. O entendimento da importância do mototaxista para a favela deu origem ao projeto do curta documental MOTO TAXI ( https://youtu.be/g88kIueX3Ok ), dirigido por Léo, realizado pelo coletivo Favela em Foco, apoiado pelo Edital da Casa Pública e financiamento colaborativo de muitos amigos do Favela em Foco.

Logo no início do subidão que dá acesso a favela, encontra-se o campo da GE (General Eletric): arena onde os times de várzea da comunidade se enfrentam. Local de lazer, socialização e palco de fortes emoções para os times rivais: Toque de Bola e Azul Futebol Clube. Léo não chegou a vestir nenhum dos dois “mantos sagrados”. Sem grandes habilidades com o pé, foi como torcedor fanático do Toque de Bola que deixou seu legado ao time. Eternizou em fotos e vídeos a memória das conquistas que levaram até o bicampeonato da Copa Jacarezinho.

Através da documentação que faz do cotidiano do Azul e da preocupação em retornar aos moradores as fotos feitas na comunidade, Leozinho da Beta, neto da Chiquinha foi se transformando no Léo que Tira Foto, conhecido e querido por todos. Ao se apresentar no ponto do Moto Táxi como amigo do Léo, você vira pessoa de casa, recebendo carinho e hospitalidade. A família do Léo já tem quatro gerações enraizadas no Azul, são ligações profundas com a história dessa favela, sua avó Chiquinha chegou quando tudo era mato, na época que o Azul era conhecido como morro da Titica. Léo sabe da necessidade de preservar essa memória e da importância de contar a história do Jacaré, tão intimamente entrelaçada com a história de sua própria família.

Assim como fez João Roberto Ripper no começo dos anos 2000 na Maré, Léo Lima está sendo responsável pela formação de uma geração de promissores produtores de imagens. Tudo começou em 2013, junto de Aline sua companheira. As crianças, filhos de seus vizinhos, literalmente ocupavam a casa da sua mãe, onde morava, e o chamavam para brincar fazendo cinema, “historinha" como eles diziam. Léo ainda não era estudante de pedagogia da UFRJ, mas já tinha trabalhado produzindo roteiros e tinha experiência como professor das muitas oficinas de pinhole que ministrou. As crianças pegaram gosto pela brincadeira, gostavam de se ver na tela do computador e estavam muito interessadas em aprender todo o processo. Assim nasceu a pedagogia do Cinema Brincante no Jacaré, com crianças de várias idades atuando como personagens das estórias que inventam ou que adaptam para o cotidiano da favela, se organizando como equipe para as tarefas de produção. Já são 18 curtas metragens com aproximadamente 5 minutos, feitos de forma independente e 2 documentários (Favela que me viu crescer e Tempo da terra).

O nome Cafuné na Laje surgiu quando Léo e Aline observavam a troca de carinho de dois gatos, afeto que transbordava para quem assistia. Sentimento similar que sentiam ao passar tardes inteiras editando os vídeos da garotada. Logo depois veio a gravidez da filha Malu e Aline acabou falecendo em decorrência de um câncer no colo do útero, descoberto durante os exames pré-natais. Aline, mulher negra empoderada, passou assim como uma estrela de brilho intenso pela vida de todos no Azul, deixando saudade, mas também muita inspiração.

Além das crianças do Cafuné, Léo com sua personalidade agregadora, consegue aproximar de seus projetos, os muitos amigos que fez desde que entrou na Escola de Fotógrafos Populares em 2009. Além das sementes que planta, Léo sabe da importância de preservar as raízes. Foi pesquisador e roteirista do “Favela que me viu crescer”, um filme que retrata a vida de Tia Dorinha, Vó Chiquinha, Tião do Azul e Mais Preto. A partir dos seus relatos e cotidianos, o filme entrelaça suas narrativas e relações de afeto construídas ao longo tempo com o Jacarezinho.

Hoje na Laje funciona a "Casa de Cafuné Aline Santos de Deus" nome do espaço criado no Jacarezinho por amigos, moradores, integrantes do Cafuné na Laje e outros grupos interessados em pensar vivências artísticas nas periferias da cidade, com essa intenção nasceu a Exposição Outro Olhar, produzida junto com o Norte Comum, que ressignificou e espalhou pelas ruas da favela fotos antigas conseguidas com moradores. A Casa de Cafuné Aline Santos de Deus, é um polo aglutinador de cultura e é mantido por seus integrantes que lutam para conseguir pagar o aluguel do espaço e outras despesas.

PS 1 > As imagens deste artigo são todas feitas no Jacaré. Léo buscou inspiração no livro Caçador de Pipas do escritor afegão-americano Khaled Hosseini para contar a história de Nenén, morador do Jacarezinho e um apaixonado por pipas, ao ponto de empiná-las dentro do seu quarto em dias de chuva. O ensaio “Nenén e os caçadores de pipas”, foi produzido como trabalho de conclusão de curso da Escola de Fotógrafos Populares.

PS 2 > Faltou falar que “Léo que tira foto” é um projeto de formação de público nas favelas, de criação de uma cultura de consumo de fotografia. “Léo que tira foto” viabiliza o registro de aniversários, casamentos, 15 anos, etc dos moradores do jacaré, cobrando preços populares e entregando um serviço de muita qualidade.

PS 3 > Esse artigo acabou ficando mais longo que o previsto. A intenção inicial era apresentar as fotos do ensaio “Nenén e os caçadores de pipas” e dizer que todas fotos estão a venda, mas como falar de Léo Lima sem falar de sua ligação afetiva com o Jacarezinho, como não falar do cuidado que ele tem com a memória do seu chão, do reconhecimento aos mais velhos tão evidente no “Favela que me viu crescer”, do carinho com as crianças, de uma história de amor tão linda que lhe deu a Malu… o artigo foi crescendo sem que eu tivesse ideia de como iria amarrar o seu final.

PS 4 > Faltou falar de coisas menos objetivas, da minha enorme admiração por esse irmão, que é puro coração. De como ele consegue alimentar de utopia todos nós. E esse artigo é para que todos fiquem sabendo que no Azul, no alto do Jacarezinho, a fotografia é bem querer.


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Luiz Baltar trabalha como fotógrafo documentarista e desenvolve projetos autorais no campo da arte contemporânea. Acredita na fotografia como forma de expressão ativista e crítica, daí sua busca em estabelecer um diálogo entre fotografia e questões sociais, sobretudo no que diz respeito ao olhar sobre a cidade.

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Ana Dalloz2 Comments