Por que fotografar?

Por Luiz Baltar

A primeira edição do Festival Verbo Ver, que aconteceu entre os dias 14 e 18 de novembro em Fortaleza, teve como tema o questionamento Por Que Fotografar? Duas mesas compostas por artistas, professores e fotógrafos foram organizadas para compartilhar opiniões que se somaram, mostrando como são diversas as motivações que nos impelem a sair pelo mundo ou procurar na intimidade as imagens que buscamos produzir.

 Compartilho aqui a Fala de Marilia Oliveira* em uma das mesas e um pouco de suas inquietações transformadas em Imagens.

Série Remissão > Crédito: Marilia Oliveira

Série Remissão > Crédito: Marilia Oliveira

Por que fotografar?

Eu me pergunto isso muitas vezes ao dia. Eu não fotografo para conhecer outras pessoas, eu fotografo para descobrir quem eu sou no mundo.

 Eu fotografo para não explodir ou enlouquecer. Carrego uma camada de angústia e aprendi com o trabalho do fotógrafo francês Antoine D’Ágata que a angústia é a melhor matéria prima para a criação, concordo com ele, sou muito afetada por isso, então eu fotografo porque a vida já é difícil demais sem produzir subjetividade e sem tentar fazer parte de uma comunidade.

Vou me aventurar a falar um pouco sobre uma das teorias do filósofo Jacques Rancière, que trata a arte como possibilidade de estender uma comunidade, compartilhando o sensível, redistribuindo papéis e tornando-o comum. Acredito na fotografia como esse lugar de transporte, de produção de sentido e de conhecimento, que nos faz ser parte de algo que é maior e em comunicação com o mundo, mesmo que sem palavras.

Série Remissão > Crédito: Marilia Oliveira

Série Remissão > Crédito: Marilia Oliveira

Comecei a fotografar na rua, acredito que como a maioria aqui presente também, e precisei de alguns anos fotografando outras pessoas para descobrir que não estava falando delas e sim de mim. Tem um espetáculo de uma companhia de dança de Natal, chamado “Alguém, que não eu, para falar de mim”: acho que a fotografia é um pouco isso, a arte é um pouco isso para todo mundo que produz.

 Também acho que fotografo porque posso. Porque moro em um bairro que me oferece segurança para caminhar, por que tenho uma casa com conforto suficiente que me serve de cenário. Porque tive acesso a uma série de privilégios que me possibilitaram conquistar um monte de diplomas, comprar uma câmera, com o dinheiro do meu trabalho, e poder estar aqui em um festival com pessoas que fazem a fotografia brasileira. Então eu fotografo por ser privilegiada. Mas quando olho as pouquíssimas pessoas negras presentes aqui e não vejo nenhuma pessoa trans, fico pensando: em que lugar a fotografia está agora para a gente?

 Eu não tenho que me desculpar por que posso fotografar, não tenho que me desculpar por ter sido selecionada em convocatórias enquanto meus amigos de periferia, amigos que produzem imagens, não conseguiram. Mas sei que o meu lugar também é de restituição.

Série Remissão > Crédito: Marilia Oliveira

Série Remissão > Crédito: Marilia Oliveira

Eu fotografo, por que quando olho para essa sala e vejo pouquíssimas mulheres, acredito que é nossa obrigação fotografar. Para nós mulheres muita coisa foi negada... a filosofia, a história, a arte, o uso dos espaços públicos, o acesso ao saber. Durante muito tempo nossa participação em tantas esferas da cultura e do conhecimento humano foi impedida. Hoje ainda não nos é dado o direito de usufruir das cidades, elas não foram feitas para nós mulheres. Continua sendo perigoso caminhar à noite, o que impede muitas de nós, por exemplo, fazerem cursos de fotografia por medo de serem estupradas na volta para casa.

 A gente deixa de participar de uma série de eventos para evitar confronto com curadores e artistas que são eventuais assediadores. A gente não pode se colocar em uma situação embaraçosa com alguém com muito poder, porque se corre o risco de veto em um lugar que ainda nem conseguimos entrar.

 Eu penso que nós mulheres da fotografia temos o dever político de existir como artistas. Nossa existência foi sempre tão reprimida... Outro dia voltava da academia e percebi que na academia e na praia a maioria das pessoas se exercitando eram homens. Me perguntei aonde as mulheres estavam, se não cuidando dos filhos, acordando, banhando e alimentando as crianças antes colégio para os homens poderem encontrar seus amigos no clube ou na praia, às 7 da manhã de um dia da semana. Acredito que a fotografia não está distante das outras esferas do cotidiano de quaisquer comunidades que estabeleçam essa assimetria de poder. Gerenciar as casas e a vida de outras pessoas, cuidar da própria integridade física diuturnamente, estar em alerta e ainda assim estudar, criar, produzir, aperfeiçoar: a carga de trabalho feminina se avoluma tanto que são menos as mulheres a chegarem até aqui, nesta cadeira, para falar a um público majoritariamente masculino sobre os espaços que eles próprios nos negaram.

Série Você mereceu > Crédito: Marilia Oliveira

Série Você mereceu > Crédito: Marilia Oliveira

Ultimamente nem tenho fotografado, tenho trabalhado com imagens apropriadas, porque eu me pergunto isso: será que o mundo precisa dessa imagem ou sou eu que preciso dizer que consigo fazê-la? Eu fiquei tocada pela fala do Baltar quando ele diz que fotografa para contar histórias, porque ele não conta as histórias das pessoas, ele conta as histórias com as pessoas, é um trabalho de muita profundidade, que sugere que não é o ego que trabalha, é o artista que trabalha, se distanciando desse lugar de quem precisa produzir a melhor imagem: ele está em relação com a imagem e não no lugar de quem a fabrica. Que histórias eu vou contar se não as minhas próprias em parceria com as pessoas que me revelam o mundo? A fotografia não revela o mundo, são as pessoas que me impelem a fotografar e assim elas descortinam o mundo para mim.

 Esses dias estava conversando com um amigo sobre o que a gente quer com a fotografia. A gente não pode querer enorme sucesso financeiro, por que isso não vai acontecer. A gente não pode querer ser glorificado, porque a glória tem caminhos muito menos tortuosos que a arte. A gente não pode esperar um nível de reconhecimento maior que a própria estratificação social em que a fotografia se encontra permite.

Eu também penso que quando não estou fotografando, mas estou refletindo sobre as palavras que dão sentido às imagens, estou, sim, fazendo fotografia. Hoje em dia estou fazendo fotografia sem clicar... ao catar uma foto no lixo, inventar um nome para a personagem encontrada e tirar tarô, com cartas que também achei no lixo, para tentar descobrir quem é essa mulher que jamais vou conhecer, mas habita o meu sonho, o meu imaginário.

Série Todos são felizes nas fotografias > Crédito: Marilia Oliveira

Série Todos são felizes nas fotografias > Crédito: Marilia Oliveira

Acho que fotografo para continuar contando histórias, para descobrir quem sou e para conseguir me ver nas imagens que tento produzir. Eu continuo a fotografar para encontrar essas pessoas, hoje presentes neste festival, ouvi-las e descobrir a partir delas um pouco sobre quem eu quero ser e sobre o que não posso mais continuar fazendo como artista.

 Eu fotografo para um dia estar aí na platéia ouvindo pessoas que ainda não conseguiram entrar em espaços como o Museu da Fotografia, falando por elas. Para que não sejamos nós, pessoas brancas de classe média, a contar as histórias do mundo e de todas as outras pessoas sobre as quais a branquitude, a heteronormatividade, o patriarcalismo se sustenta.

Série Todos são felizes nas fotografias > Crédito: Marilia Oliveira

Série Todos são felizes nas fotografias > Crédito: Marilia Oliveira

* Marília Oliveira é fotógrafa, educadora, mestranda em comunicação pela UFC. Integra o Descoletivo junto a Régis Amora, com quem tem três fotolivros publicados e algumas exposições individuais e coletivas. Integrou a mostra coletiva de cearenses no festival “Encontros da Imagem”, em Braga, Portugal, em 2013. Em 2015, com o Descoletivo, realizou a exposição Afetos Urbanos no Espaço Cultural dos Correios, em Fortaleza, com lançamento de livro homônimo.  Participou de festivais de arte urbana como o Além da Rua e Festival Concreto. Em 2016 lançou a publicação Séries sobre o sutil, contemplada pelo edital do Instituto Bela Vista em parceria com a SECULTFOR. Realizou, em 2017, exposição individual “Você Mereceu”, premiada pela TAC – Temporada das Artes Cearenses, do Instituto Dragão do Mar. Foi contemplada, junto ao Descoletivo, pelo edital LGBTT de Cultura, lançando em 2017 o fotolivro Tempo Imperfeito – uma fotobiografia de Camilly Leycker. Com esta publicação, o Descoletivo integra, atualmente, a biblioteca nacional do Instituto Moreira Sales. Em 2018, expôs a obra Remissão no Espaço Cultural dos Correios, em Fortaleza-CE. Pesquisa, atualmente, questões ligadas à violência de gênero, apropriação de imagens e a relação entre imagem e palavra para composição de narrativas.


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Luiz Baltar trabalha como fotógrafo documentarista e desenvolve projetos autorais no campo da arte contemporânea. Acredita na fotografia como forma de expressão ativista e crítica, daí sua busca em estabelecer um diálogo entre fotografia e questões sociais, sobretudo no que diz respeito ao olhar sobre a cidade.

Ana Dalloz1 Comment