lá embaixo vai ter o que eu acho

Por Luiz Baltar

lá embaixo
vai ter
o que eu acho*
 

Ando muito nostálgico nesses últimos dias, talvez por estar desempacotando minha última mudança. Cada caixa aberta é uma nova camada de lembranças e de sentimentos se materializando na forma de objetos. Da mesma maneira que acumulo imagens na memória do meu celular, não pratico o desapego com as tralhas que juntei durante anos, toda coisinha que tiro da caixa vem carregada de recordações e me faz ter que tomar alguma decisões (1) Catalogar (2) Exibir como um troféu (3) Ressignificar (4) Esconder ou (5) Jogar fora.

Em uma dessas máquinas do tempo, em forma de caixa, encontrei um desses troféus de uma vida passada: meus equipamentos de mergulho, atividade que deixei de fazer há mais de 10 anos. Já fui apaixonado por mergulho em naufrágios e todas as atividades que cercam essa especialização: pesquisa histórica, investigação, muitas horas de barco procurando o local, planejamento do mergulho para finalmente ter o prazer de passar míseros minutos explorando um outro tipo de capsula do tempo. Toda embarcação, ao afundar, leva consigo um instantâneo da sua época histórica. Nas pausas que surgem entre tirar a poeira e conseguir um lugar na estante para mais três livros desempacotados, fiquei viajando nas analogias que eles traziam entre as práticas de mergulhar e fotografar. São muitas.

 Sharkification, de Cristina de Middel

Sharkification, de Cristina de Middel

Em uma apresentação, do então projeto de livro Sharkification, a autora Cristina de Middel usa como metáfora para representar as favelas cariocas, o fundo do mar e o leitor como um mergulhador. Esses territórios, na fala dela na época, são lugares perigosos onde não se consegue ficar mais que 4 minutos sem colocar a vida em risco. Realmente tal qual o mar, as favelas são lugares que você precisa respeitar. É preciso saber entrar, saber como se comportar e principalmente saber sair. Saberes exigidos para quem tem o desejo de ir mais fundo e ficar mais tempo. No mergulho autonômo, feito com cilindros de ar comprimido, cada minuto a mais no fundo exige um tempo considerável para descompressão. Entrar em um ambiente desconhecido e sair dele sem um tempo seguro de reflexão, implica muitas vezes em reproduzir esteriótipos.

 Periscope, de José Diniz

Periscope, de José Diniz

É no raso, onde o pé ainda alcança a areia, que José Diniz enche seus pulmões e vai de apneia aos tempos de criança. Seguimos viagem sob o comando do pequeno Zé, deslumbrado por submarinos espiões e fã das aventuras de Mike Nelson. Seu livro Periscope demorou mais de 8 anos para ser condensado em 54 imagens que mostram que é possível ter profundidade sem sair da linha d’água. Nas palavras dele, “desde criança vivo com o pé na água. Escritores, poetas e filósofos se utilizam da imagem do mar, em todos os seus aspectos. O ser humano está em permanente desafio diante dessa imensidão de água”.

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Expandir o tempo para conhecer lugares pouco explorados, compartilhar o que é visto ou sentido e ampliar os limites são os desejos de quem mergulha no mar ou na memória. Um trabalho baseado em conhecer lugares no Brasil profundo e buscar neles as lembranças da própria família, seguindo o roteiro contado por sua mãe, é o que Ratão Diniz vem fazendo nos últimos 10 anos. Tal qual um explorador de naufrágios, vem construindo um trabalho documental, buscando vestígios afetivos da migração norte/nordeste x Rio de Janeiro. Em seu primeiro livro Em Foto Ratão Diniz as longas conversas com seus personagens estão presentes em forma de entrevistas, depoimentos e relatos. Para Ratão, tão importante quanto apresentar imagens carregadas de beleza é dividir as histórias que coletou desses encontros. Segundo o autor, “fotografo pensando no retorno que o trabalho poderá ter para as pessoas que fotografei. Não importa o que os críticos de arte falam das imagens. Se o fotografado se vê representado, se ele se reconhece, considero um ganho”.

*Sem saber que título dar a esse artigo fui buscar socorro em quem sembre me inspira, Paulo Leminski. Foram várias caixas reviradas até achar sua antologia.

** Paulo Leminski, escrevia poesia marginal em forma de haicais. Diziam que era trotikista, mas eu acho que era anarquista. É isso que eu acho!


 Luiz Baltar - colunista do Blog Ateliê Oriente

Luiz Baltar trabalha como fotógrafo documentarista e desenvolve projetos autorais no campo da arte contemporânea. Acredita na fotografia como forma de expressão ativista e crítica, daí sua busca em estabelecer um diálogo entre fotografia e questões sociais, sobretudo no que diz respeito ao olhar sobre a cidade.