O feminismo é transformador

Me considero feminista desde criança. Não sei ao certo o que me levou a crer e perceber que eu estava abraçando esse posicionamento, mas tenho algumas pistas e elas começam com a minha avó materna. Japonesa, imigrante aos 5 anos, órfã de mãe, veio com seu pai ao Brasil numa longuíssima viagem de navio que durou meses. Quando tinha perto dos 20 anos foi escolhida pelo meu bisavô paterno para ser a noiva de seu filho, meu avô, através de um álbum que continham fotografias de mulheres japonesas dispostas a casar. Não houve trocas de mensagens ou telefonemas entre eles; apenas alguns encontros acompanhados da família para oficializar o noivado. O casamento arranjado, miai em japonês, lhe rendeu dois filhos e muita infelicidade. Minha mãe conta que a minha avó, apesar de toda a cultura submissa japonesa, era uma mulher à frente do seu tempo. Ela trabalhava como cabeleireira e ganhava muito bem. Montou seu próprio salão de beleza e investiu em alguns imóveis. No entanto, qualquer coisa que ela quisesse fazer, tinha que haver uma reunião com a família inteira de seu marido, para que eles pudessem autorizá-la ou não.

Não conheci a minha avó, mas aquela imagem de uma mulher forte - apesar de ter sido silenciada a vida inteira - habitou a minha imaginação durante muitos anos. Com ela também aprendi o que não queria: não queria ser escolhida - queria poder escolher; não queria viver com quem eu não amasse; não queria seguir as normas impostas; não queria ser silenciada. Hoje me peguei num exercício de imaginar a minha avó habitando esse mundo atual: acho que por toda o movimento dela, apesar das amarras, ela seria feminista!

Quase trinta anos depois de ouvir essas histórias, eu me tornei mãe (uma experiência avassaladora, mas isso eu conto em outro post). Com o nascimento dela eu passei a participar de um grupo virtual de mães que foi essencial para a minha sobrevivência emocional e mental nos primeiros meses - e até hoje é. Aprendi o que significava a palavra “sororidade” - que até então eu desconhecia - e seu significado na prática. Fiz amizades com outras mães. Dois anos depois, entrei no curso Mulheres e Feminismos e na Arte Contemporânea e junto com as minhas colegas de turma e com as professoras Roberta Barros e Simone Rodrigues, descobri que não há um feminismo. Há vários! Cada um com suas características e potências. Dessas descobertas nasceu um trabalho artístico que se despede hoje da Galeria Oriente: a minha exposição “O mundo do silêncio”.

E essa minha jornada está só no início. O feminismo é transformador.

Por isso, quero usar esse espaço para apresentar trabalhos de artistas feministas. Você pode não saber, mas somos muitas! Você me acompanha?

Ana Dalloz3 Comments