No Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro: três eventos fotográficos.

Por Andreas Valentin

Uma foto não é apenas o resultado de um encontro entre um evento e um fotógrafo; tirar fotos é um evento em si mesmo, e dotado dos direitos mais categóricos - interferir, invadir ou ignorar não importa o que estiver acontecendo.
— Susan Sointag

Três magníficas exposições atualmente em cartaz no Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro, apresentam imagens que exemplificam bem esses encontros diversos entre eventos e fotógrafos. Ali estão representadas uma fotografia de retratos que trespassa também a fotografia social; uma fotografia que retrata a política; e uma fotografia poética que espelha a cultura e a inteligência de uma época.

De 1948 a 1962 o fotógrafo Seydou Keïta (1921-2001) fotografou os habitantes do seu país, o Mali. Com seu olhar apurado, Keïta registrou as expressões, os vestuários, os gostos e as próprias relações sociais de centenas de pessoas de diversas classes sociais que procuravam seu estúdio para serem fotografadas. No final da década de 1950, a ocupação colonial francesa começava a dar lugar a uma nova nação africana independente. As poses, marcadas pela tensão entre modernidade e tradição, refletem também a postura da sociedade malinesa diante dessas duas realidades. 130 fotografias, algumas em grandes formatos, ampliadas em processo de gelatina de prata a partir dos negativos originais do fotógrafo, retratam a beleza, a altivez e o orgulho dos malineses.

A exposição Seydou Keïta permanece até 27 de janeiro de 2019.

Bamako (Mali), entre 1948 e 1963. Foto de Seydou Keïta/ Contemporary African Collection (CAAC) - The Pigozzi Collection

A fotógrafa italiana Letizia Battaglia, nascida em Palermo, Sicília, iniciou sua carreira como fotojornalista em 1971 na cosmopolita Milão. Em 1974 retornou à sua cidade natal para assumir a editoria de fotografia do jornal local, L’Ora di Palermo. Ali, as décadas de 1970 e 1980 foram marcadas pela violência da “Guerra da Máfia”, quando um pacto entre a política e a contravenção controlava a cidade. Letizia documentou os conflitos que abalaram Palermo produzindo imagens intensas e impactantes. Fotografou também os habitantes dos bairros pobres que se contrapõem às festas regadas a champagne da alta sociedade italiana; os movimentos políticos (ela própria foi deputada e secretária de cultura pelo Partido Verde); e o despertar de novos comportamentos sociais. Para realizar suas fotografias, muitas das quais com lentes grande-angulares, a fotógrafa “chega perto” e, assim, traduz ao pé da letra a famosa frase de Robert Cappa: “se suas fotografias não são boas os suficientes é porque você não chegou perto o suficiente”.

A exposição Palermo permanece até 17 de fevereiro de 2019.

Crianças brincam com as armas que receberam de presente dos pais no 2 de novembro, dia dos mortos, Palermo, 1986. Foto de Letizia Battaglia

O fotógrafo carioca Alécio de Andrade (1938-2003) viveu desde 1964 em Paris, onde desenvolveu grande parte de seu trabalho. Conviveu ali com brasileiros, muitos dos quais exilados na França durante a ditadura militar. A exposição apresenta 45 retratos realizados pelo fotógrafo durante toda a sua carreira. São imagens de escritores, artistas, intelectuais e políticos, entre eles, Drummond, Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar, Oscar Niemeyer, Glauber Rocha, Celso Furtado, Mario Pedrosa e Lygia Clark. As fotografias mostram não só sua intimidade com os retratados, como também descontração e, principalmente, poesia. Como bem escreveu Carlos Drummond de Andrade sobre a primeira exposição do fotógrafo: “Uma arte vinculada com a mais fugitiva e perene das realidades poéticas, eis o dom sublime de Alécio de Andrade”. A exposição apresenta também um interessante diálogo entre a palavra e a imagem, através de cartas originais que Alécio recebeu do Brasil.

A exposição Cartas a Alécio de Andrade permanece até 24 de março de 2019.


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Andreas Valentin é fotógrafo, pesquisador e curador. Doutor em História Social (UFRJ), com uma pesquisa sobre a fotografia amazônica do alemão George Huebner (1862-1935). Mestre em Ciência da Arte (UFF) e graduado em História da Arte e Cinema (Swarthmore College, Pennsylvania, EUA). É professor-adjunto de Fotografia e História da Arte (UERJ). Sua exposição “Berlin<>Rio: Spuren und Erinnerungen”, inaugurou no Haus am Kleistpark, Berlin, em 3 de maio e ficará em cartaz até 12 de agosto de 2018.

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Ana DallozComment