Cruzando Fronteiras - Ana Mendieta

Por Joana Mazza

 Ana Mendieta Silueta series, 1980  

Ana Mendieta
Silueta series, 1980
 

Uma visão de Ana Mendieta mais além da sua conturbada e trágica biografia

Ana Mendieta é uma artista cubano-americana que viveu um período revolucionário, desde Cuba nos anos 60 aos Estados Unidos posteriormente, ela vivenciou e foi também vítima deste doloroso processo de transformação social. Como mulher latino-americana neste contexto ela tem uma vivência ainda mais específica e, sem dúvida, este processo foi decisivo na sua produção artística. Assim nesta edição vamos tratar de uma linha artística desenvolvida por ela, a Earth-Body Sculpture. 
Earth-Body Sculpture (esculturas terra e corpo), engloba um conjunto de obras desenvolvidos por mais ou menos uma década a partir de meados dos anos 70. Seguramente a palavra terra, apesar do duplo sentido possível tanto em português quanto em inglês, correspondentes a capa superficial (matéria) e o planeta, nesta obra seu sentido está direcionado sobretudo a nossa matriz, materializando a conexão entre a artista e a natureza, entendendo a própria como parte da natureza e não como a atual compreensão ocidental “o homem e a natureza”, onde não nos consideramos parte dela. Assim a artista mergulha em seu processo criativo na origem da vida, recriando em seu corpo de trabalho a própria energia feminina.

Minhas obras são as veias da irrigação desse fluido universal. Através delas ascende a seiva ancestral, as crenças originais, a acumulação primordial, os pensamentos inconscientes que animam o mundo - Ana Mendieta

É importante observar que Ana Mendieta é contemporânea ao surgimento do Land Art - também conhecido como Earth Art (Arte da Terra) – porém, ao contrário de nomes como Robert Smithson e Walter de Maria, a artista não procurou criar obras que tratassem de relacionar-se com a natureza de forma controladora, muito pelo contrário, existe um gesto de absoluta entrega e simbiose com a natureza, resultado de sua profunda busca pela própria identidade e pela conexão com a sua origem. O desenvolvimento destas obras começa a partir do seu próprio corpo, e, à medida em que aprofunda a conexão com a natureza sua imagem se transforma em silhuetas, em um processo que culmina com meros vestígios de intervenção da artista, onde claramente se visualiza um processo de entrega e absorção do corpo a paisagem. Durante este processo, não em menor medida existe uma busca cultural de sua origem ancestral, apropriando-se de elementos e simbologias referentes aos Taínos, povo originário do leste de Cuba, República Dominicana, Haiti, Jamaica e Porto Rico. Estas referências estabelecem uma relação artística e cultural completamente distinta da visão ocidental, balizando a experiência artística em um processo inovador e absolutamente próprio. 

Através das minhas esculturas da terra e corpo me uno completamente à terra (...) eu me torno uma extensão da natureza e a natureza se torna uma extensão do meu corpo. Esse ato obsessivo de reafirmar meus laços com a terra é realmente a reativação das crenças primitivas (...) uma força feminina onipresente, a imagem que permanece depois de estar cercada pelo ventre materno, é uma sensação de sede de ser - Ana Mendieta

Nesta sua série de obras a matéria prima parte pelo próprio corpo, seguido de sangue, terra, fogo, ar e água, elementos básicos em constante movimento de nascer, morrer e renascer. Estas são realizadas no modo arte in situ, o que significa que ela existe relacionada ao lugar onde é criada, no caso, em uma relação absolutamente íntima entre a artista e a natureza. Cabe complementar que as obras não se encerram nesta dualidade, artista e paisagem, mas sobrevivem no tempo e chegam até nós através de um terceiro elemento, o meio em que este processo está registrado. Assim passa a ser parte fundamental deste diálogo o dispositivo tecnológico. Ao contrário do Land Art, já mencionado, cujas célebres imagens são realizadas por fotógrafos convidados, no caso de Ana Mendieta a principal autora das fotografias e vídeos de suas obras Earth-Body Sculptures é a própria artista, completando um círculo de comunicação absolutamente contemporâneo: o visual e o televisual operam a mediação entre o íntimo e o público através de um aparato de apropriação de um espaço-tempo efêmero, afinal suas obras Body-Earth foram realizadas para seguir existindo através destes meios.

Body-Earth Scupltures são por fim uma criação entre a Land Art já mencionada e a Body Art (arte do corpo), entendendo o corpo do próprio artista como a base da criação, diretamente relacionado a um processo de performance e experiência artística, a partir do qual a obra existe para além da relação objeto-obra de arte. Entretanto na Body Art também pode ser reconhecido a intenção de controle do homem – como identifiquei na Land Art -, nesse caso sobre o próprio corpo do artista, em um processo muitas vezes violento sobre si. Mais uma vez, sobre este aspecto, em Body-Earth Sculpture existe uma entrega em um âmbito totalmente distinto, utilizando a performance e a experiência artística para vivenciar uma espécie de ciclo sagrado em harmonia com o próprio ser.


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Joana Mazza é curadora, produtora cultural, artista, especialista em fotografia latino-americana. Atualmente está cursando o mestrado em arte, pensamento e cultura latino americano no instituto de estudos avançados IDEA da Universidade de Santiago do Chile. É formada em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ e pós graduada em fotografia pela Universidade Candido Mendes. Entre suas principais atividades destacam-se a coordenação de exposições do FotoRio (edições de 2003 a 2009), a coordenação do Programa Imagens do Povo (2010 a 1003) e da Escola de Fotógrafos Populares de 2012 (Observatório de Favelas), e como curadora assistente no MAC de Niterói (2013 a 2015).

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