Torna-te quem tu és - Mês da Visibilidade Trans

Por Lívia Kessedjian

No último dia 29 (terça) foi comemorado o Dia da Visibilidade Trans. A data foi escolhida porque 27 travestis, mulheres e homens trans entraram no dia 29 de janeiro de 2004 no Congresso Nacional em Brasília para lançar a campanha “Travesti e Respeito: já está na hora dos dois serem vistos juntos. Em casa. Na boate. Na escola. No trabalho. Na vida.”, que foi elaborado por elas e eles. Foi uma ação histórica e importante dentro do espaço de poder na luta em prol da população trans e travesti.

Conheci Gabriel Meinberg em 2017. Gabriel é um homem transgênero. Registrado ao nascer como Gabriela, desde muito novo não se identificava com o gênero que constava em sua certidão de nascimento.

Quando Gab me contou sobre seu processo de transição, eu, com 27 anos na época, não sabia quase nada sobre o tema. Sempre super aberto e generoso, quando perguntei se poderia fotografá-lo um dia, ele imediatamente me respondeu que sim.

Pronto! Em novembro de 2017 nascia o projeto fotográfico “Torna-te quem tu és”. Dois meses antes, Gab tinha dado início a sua transição física, que consiste na aplicação de hormônio masculino (Testosterona), além de acompanhamento psicológico, médico e aparato legal.

De lá pra cá, além da documentação do dia a dia e das mudanças que se deram na sua vida desde então, o projeto busca o registro da descoberta e da identificação do eu.

Como fotógrafa, me limito à linguagem imagética. Gabriel fala por si. Não seria diferente nesse texto:

 Lívia: O que significa pra você ver seu processo de transição em fotografias?

Gabriel: Acho que ver o processo em fotografia ajuda muito a perceber as mudanças. Chega uma fase da hormonização que você acha que está mudando pouco, ou que não está mudando nada. Ter esse processo em foto ajuda a mostrar que as coisas estão sim mudando e acontecendo.

 L: Como era/é a sua relação com a fotografia (ser fotografado e se fotografar)?

G: A minha relação com a minha auto imagem mudou muito. Antes eu tinha muita resistência e dificuldade em ver meu reflexo ou me ver em foto. Era uma situação que me deixava extremamente desconfortável. Hoje, vejo que o exercício de tirar fotografias, tanto para projetos como selfies, foram muito importantes para a construção da minha autoestima. Hoje posso dizer que olhar uma foto minha me deixa muito orgulhoso do meu processo como um todo.

 L: Quais mudanças você percebeu durante esse tempo de projeto (tanto nas imagens, quanto em você)?

G: Essa é uma pergunta difícil e acho que a resposta não é tão objetiva. Tudo em mim mudou e não mudou ao mesmo tempo. Acho que o grande lance desse processo, que acho que fica muito claro nas fotos, é de fato por pra fora o que você sempre foi por dentro. Isso somado com uma confiança, um autoconhecimento, com uma força que você vai adquirindo durante a caminhada.

 L: Na sua opinião, qual a relevância de um projeto como esse?

G: Eu acho que um projeto como esse é muito importante especialmente para a pessoa que está sendo fotografada conhecer ou reconhecer essa nova parte de si mesmo. Pra mim foi muito importante para acabar com algumas questões que eu tinha com o meu corpo. Fora que, para quem está vendo de fora, acho que esse projeto desmistifica a questão trans e mostra que no fundo todos nós buscamos o mesmo: tornar-se quem somos.

Uma rede de apoio formada pelo Gab, junto com outros amigos homens trans, realiza desde o início deste mês uma vaquinha online para arrecadar fundos, custear e realizar cinco “mastectomias masculinizadoras” (como eles chamam) ou “mamoplastias masculinizadoras” (termo médico para o procedimento).

Quer ajudar? http://vaka.me/442193


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Lívia Kessedjian é fotógrafa e pós graduanda em Fotografia e Imagem pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – Universidade Candido Mendes (IUPERJ/UCAM). Há três anos integra a equipe do Ateliê Oriente. Desde 2017, é professora de fotografia no projeto social Arte com Visão do Instituto Mundo Novo, em Chatuba de Mesquita – RJ. Em 2018, teve seu trabalho exposto no Festival Internacional de Fotografia Paraty em Foco, na intervenção urbana coletiva dos alunos da IUPERJ/UCAM.

Ana Dalloz