Cruzando fronteiras - Máximo Corvalán-Pincheira

Por Joana Mazza

Entrevista com Máximo Corvalán-Pincheira (Chile)

Neste espaço mensal dedicarei a falar e apresentar artistas, fotógrafos e outras linguagens que apresentem temas contemporâneos, sem limitar-se a uma forma específica, mas sobretudo que a América Latina seja o eixo central da produção, que parta dela para cruzar outras fronteiras e não o contrário.

Como atualmente resido no Chile, em homenagem ao país que me acolhe, escolhi apresentar o artista contemporâneo Máximo Corvalán-Pincheira, cuja produção recente foi exposta no Centro Nacional de Arte Contemporáneo Cerrillos (Santiago, Chile) em 2017.

Máximo gentilmente me recebeu em seu ateliê, mas de uma conversa de horas, aqui apresento uma pequena edição. Antes, porém, vou apresentar brevemente alguns aspectos de sua biografia, supondo que o leitor brasileiro não esteja familiarizado com detalhes da história chilena, pois entendo que ela se reflete e está profundamente emaranhada nas obras deste autor.

O pai de Máximo era conselheiro do presidente Salvador Allende, e fez parte da resistência no Palácio de la Moneda em 11 de setembro de 1973 quando ocorreu o Golpe de Estado encabeçado pelo general Augusto Pinochet. Desde este momento seu pai desapareceu e seu destino ficou por muitos anos sem respostas. Máximo ainda não havia nascido neste momento, mas no mesmo ano foi em exílio com sua família para Bogotá, depois para Berlin, Havana e finalmente México onde viveu até 1990. Com a volta da democracia no Chile, Máximo voltou ao Chile e ao seu passado. Foram muitos anos para juntar as peças das histórias dos desaparecidos políticos, que por sinal ainda há muito o que descobrir, mas neste caso dois momentos foram cruciais, primeiro uma suposta identificação de um corpo, e com ele o luto, a dor, a despedida. Em um segundo momento ocorreu uma reviravolta com a chegada dos modernos exames de DNA e descobriu-se que se tratava de outra vítima, até que finalmente chegaram a um fragmento de corpo, que havia sido dinamitado e depois jogado ao mar, junto com outros tantos, mas este fragmento que ficou foi fundamental para identificar a história e o destino de seu pai.

Joana Mazza - Claramente sua própria biografia potencializa e une os dois tópicos mais aprofundados em sua obra como a imigração / exilio e o corpo como lugar do exercício da violência. Você poderia descrever como foi o processo de ressignificar estes pontos em uma leitura contemporânea e para além dos limites da história e geografia do Chile?

Máximo Corvalán-Pincheira -  Comecei inspirado no conceito dos pan-óptico de Foucault e fui dando conta que o conceito de democracia vigiada estava relacionado a minha história. Em 2001 realizei uma trilogia de exposições, cujo objetivo final era que se o observador entrava em uma exposição para ver uma obra, terminava vendo a si mesmo, como em uma ardilosa isca. Com a etapa de identificação das vítimas do Golpe Militar com exames de DNA, iniciei minha primeira série DNA, mas para tratar de temas tão difíceis, prefiro recorrer à beleza e à poesia para atrair o espectador.

 Série  ADN

Série ADN

JM – Existe uma profunda inquietude na série ADN (DNA) que surge entre luzes e reflexos, horas remetendo ao oceano, horas remetendo a um céu estrelado, com o distanciamento se identificam as referências as formas do DNA e com a aproximação se reconhece os fragmentos de ossos humanos, por onde circulam fontes de água.

MCP – O único irrepetível de uma pessoa de alguma forma também se encontra no ADN, assim também no ADN se apresenta uma nova forma de identidade.

Outra linha de trabalho que venho seguindo é baseada nas listas de casos, sejam vítimas de feminicídio, desaparecidos, etc. Me interessam os conflitos sociais.

Comecei a trabalhar sobre a imigração a partir da crise no Mediterrâneo, realizei inúmeras entrevistas de refugiados entre eles Aziz Faye, cuja entrevista gerou a instalação AZIZ. E segui realizando entrevistas com refugiados na Coréia do Sul e no Chile. De este último grupo surgiu a ação instalativa e o vídeo La Ropa Sucia se Lava em Casa (A Roupa suja se lava em casa). As roupas dependuradas banhadas com cloro remetem uma ideia de branqueamento, homogeneização, desinfecção.

 Instalação  AZIZ

Instalação AZIZ

Os retratos realizados durante as entrevistas são entregues aos entrevistados como uma forma de intercâmbio, mas com a experiência na Coréia do Sul eles resultaram na série Proyecto Mor, partindo de uma ideia romântica de que somos todos iguais, mas ao final sempre há conflitos. Eu me pergunto: Se o capital tem livre circulação por que as pessoas não?

  Proyecto Mor

Proyecto Mor

JM – Sua Linguagem se apropria de formas distintas como Instalação, performance, escultura, fotografia e vídeo. Esta multidisciplinaridade te trouxe quais benefícios e quais questões?

MCP – Não me preocupo com a materialidade ou a técnica, o projeto é a investigação que está por detrás, é ela que apresenta as necessidades. Sempre me apoiei com profissionais de distintas áreas para o desenvolvimento dos trabalhos.

JM – Como a fotografia está presente e em que medida?

MCP – Eu utilizo a fotografia em várias obras, como registros de uma ação, ou em alguns casos a fotografia é em si uma questão ou uma base, existem casos que ela começa como processo de investigação até que finalmente se transformam em obra.

JM – Em que pontos você acredita que sua obra transborda para América Latina e em especial para o Brasil?

MCP – Em ambas as séries podem perfeitamente adequar-se ao Brasil, tanto na questão da imigração como nos casos das inúmeras mortes e desaparecidos.

JM – Vale ressaltar o caso recente de Marielle Franco ou Amarildo, conhecidos casos entre um crescente número de vítimas maioritariamente afrodescendentes da violência de estado no país.

JM – Você recomenda alguma referência?

MCP – Francis Alÿs

Para saber mais: www.maximocorvalan-pincheira.com

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Joana Mazza é curadora, produtora cultural, artista, especialista em fotografia latino-americana. Atualmente está cursando o mestrado em arte, pensamento e cultura latino americano no instituto de estudos avançados IDEA da Universidade de Santiago do Chile. É formada em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ e pós graduada em fotografia pela Universidade Candido Mendes. Entre suas principais atividades destacam-se a coordenação de exposições do FotoRio (edições de 2003 a 2009), a coordenação do Programa Imagens do Povo (2010 a 1003) e da Escola de Fotógrafos Populares de 2012 (Observatório de Favelas), e como curadora assistente no MAC de Niterói (2013 a 2015).

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