Isis Medeiros / Diante da dor dos outros

Por Luiz Baltar

As ideologias criam arquivos de imagens comprobatórias, imagens representativas, que englobam idéias comuns de relevância e desencadeiam pensamentos e sentimentos previsíveis.
— Susan Sontag
Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

Quando o desastre de Mariana caminhava para o esquecimento e somente as vítimas lutavam contra o apagamento da memória do maior crime ambiental do Brasil, todo o drama se repetiu em Brumadinho. O Rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro, foi ainda mais impactante na vida dos moradores da cidade, centenas de desaparecidos e mortos, para alguns era a repetição de um pesadelo. Fotojornalistas e ativistas de diversos movimentos sociais partiram para a região do desastre, já nos primeiros momentos, entre eles estava Isis Medeiros https://www.facebook.com/isismedeiros.design, fotógrafa mineira, que já havia acompanhado todo o drama vivido em Paracatu e Bento Rodrigues, distritos de Mariana. Isis, levou apenas três horas desde o anuncio do rompimento até chegar, junto com os familiares, na comunidade de Córrego do Feijão. Presenciou muito desespero e pouquíssimas informações. Já nas primeiras postagens Isis usa suas contas no Facebook e Instagram <@isismedeiros_foto>, para expressar emoção e revolta.

Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

A mesma lama, mesmíssima lama da ganância e do lucro cobrem nossos corpos, nossas vidas.
A mesma bota que pisou Mariana foi pisar nesse rejeito imundo que nos inunda mais uma vez.
Não relativizem mais nada, não duvidem da covardia por trás de tudo isso. Façam isso pela alma dos mortos e dos seus familiares que agonizam agora. A tragédia da mineração não é nenhum acidente, é CRIME! #ValeNada
— Isis Medeiros

Antes mesmo de se entender como fotógrafa, Isis já atuava em diversas causas sociais, mesmo assim recusa o termo “ativista” e se considera fotógrafa popular, se alinhando com a proposta política de uma fotografia humanista feita nas periferias.

Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

Quando somos bombardeados, constantemente, por imagens de desgraça elas acabam por nos anestesiar, já não causam o mesmo impacto da primeira vez e o impressionante vira imagem clichê, facilmente esquecida ao dar lugar a nova imagem impactante da semana. Isso acontece com as representações de crueldade e também de guerra e de desastres.

O filosofo Vilém Flusser diz que Imagens são mediações entre homens e o mundo, e que passamos a viver em função das Imagens no lugar de nos servir delas. A Grande imprensa sabe do poder quase mágico que a imagem exerce e que apenas mostra-las já não é suficiente, em uma sociedade visual como a que vivemos, é preciso intermediar a realidade, ficcionar, transformando-a em uma experiência para enfim conduzir seu público, através da êxtase até a mensagem que querem fixar. Em Brumadinho, o que deveria ser uma cobertura jornalística de um crime com centenas de mortos, investigando responsabilidades e dando voz às vítimas, vira um espetáculo de imagens sobre a força destruidora da natureza. As empresas de mídia sabem muito bem como o discurso construído sobre os fatos nos afetam e seguem vendendo tragédia quando deveriam falar das ações criminosas das mineradoras. Não informam e nem criam uma massa crítica sobre os problemas.

Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

Isis até agora não tinha visto uma cobertura tão próxima à realidade dos acontecimentos como as suas. A fotos da grande mídia, com imagens tiradas no céu, de helicópteros, nos distancia da realidade e da dor dessas pessoas, transformando-as em números frios. Obrigada e parabéns pelo trabalho.
— Silvia Castelo Branco

A maioria dos fotógrafos também se encanta pelas imagens divulgadas e pela narrativa de tragédia e heroismo. Desejosos de viverem uma glamourosa vida de fotojornalista, sonham em reproduzir as imagens já feitas e postar nas redes sociais, não enxergam as camadas mais profundas do drama das vítimas. É importante trabalhar no factual, denunciar imediatamente e produzir imagens para que debates necessários sejam feitos. Mas em alguns momentos acho que a vaidade é uma motivação mais forte que a solidariedade ou desejo de contribuir.

“…muitas vezes somos acometidos da síndrome do fotógrafo-herói”, como me explicou o amigo Luciano Laner, pesquisador de Linguagens Visuais do PPGAV-EBA/UFRJ, “queremos alcançar os holofotes que estão voltados para o acontecimento. No regime contemporâneo do triunfo dos simulacros, a foto é o meio, os holofotes o fim. Inversão de valores.”

E Brumadinho se tornou o cenário de destruição e guerra desejado pelo fotografo-herói, nos primeiros dias estavam por toda parte, em pequeno ou grandes grupos. Eufóricos quando encontravam a luz perfeita ou disputando posição para não perder o momento decisivo ou ser furado pelo colega, fotografando as mesmas cenas, no mesmo ângulo com as mesmas lentes. Reforçando com suas imagens a narrativa oficial da tragédia, da força da natureza e do heroismo. Muitos registraram em imagem a dor dos familiares, mas sem tempo de ouvi-los.

Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

…os tios e tias vestidos de laranja desfilavam pela cena do crime fazendo fotografias como se estivessem em uma excursão na Disney. Fizeram desse cenário um famoso safári para depois publicarem em suas redes dizendo que se importam e defendem aquele povo atolado tristemente pelo que chamaram de “acidente”. Insisti com o senhor que era CRIME e não ACIDENTE e mesmo assim ele ficou se justificando.
— Isis Medeiros

Isis, passou os dois primeiros dias sem dormir, não conseguia, perturbada com tudo, ainda não tinha conseguido editar suas fotos, separar seu material ou escrever com mais apuração, mas postava do celular sua opinião e fez das suas redes sociais um canal de comunicação importante. Isis nunca procurou disputar narrativas com a grande mídia, mas a sua leitura dos acontecimentos e seu posicionamento crítico nas postagens que fazia eram comentados e compartilhados. Com a liberdade de não estar pautada, pôde documentar o que de fato estava acontecendo. A experiência de Mariana ajudou a ir mais fundo, na raiz das questões que não se encerram em Brumadinho.

Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

Com menos de um mês, desde o rompimento da barragem, o cenário mudou. Isis continua trabalhando em campo, mas seu o ritmo diminuiu, alternando três dias em Brumadinho com um em Belo Horizonte, para descansar e organizar suas pautas. “Tudo está diferente agora. Cada semana a situação muda, a imprensa sumiu, os voluntários não são tantos e o número de bombeiros está mais reduzido. A cena da tragédia também já mudou e a população atingida já está com outro clima.

 As documentações mais significativas sobre Mariana e Brumadinho são as que começaram a ser feitas para impedir o esquecimento, aprofundar as causas e colocar o foco na luta dos atingidos, nos seus dramas, no desgaste e cansaço que os abate depois de tantas derrotas contra o poder econômico, o preconceito e o processo que transforma vítimas em culpados perante a comunidade.

Foto: Isis Medeiros

Foto: Isis Medeiros

Atualmente Isis está, junto com outros profissionais, organizando o grupo Fotógrafos Pela Democracia em Minas Gerais e pretende, com outros produtores de audiovisual de Minas, realizar investigações sobre as diversas mineradoras no estado, um trabalho que busca também unir e somar esforços, já que a conjuntura está exigindo demais e é preocupante viver sabendo da ameaça eminente das barragens. 

Precisamos mais do que nunca estarmos unidos. Para alguns o verbo ‘lutar’ pesa. Eu sei! Também já senti isso, mas é isso mesmo. Lutar e resistir de todas as formas a este modelo de exploração predatório. Denunciar sim, sempre! Todos os dias e não somente na tragédia.
— Isis Medeiros>

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Luiz Baltar trabalha como fotógrafo documentarista e desenvolve projetos autorais no campo da arte contemporânea. Acredita na fotografia como forma de expressão ativista e crítica, daí sua busca em estabelecer um diálogo entre fotografia e questões sociais, sobretudo no que diz respeito ao olhar sobre a cidade.

Ana DallozComment