O descobrimento (tardio) da fotografia africana

Por Ioana Mello

David Goldblatt, Vendedora Soweto, 1972

Há alguns anos a arte africana contemporânea, e com ela a fotografia, vem ganhando espaço no velho continente. Várias feiras de arte especializadas se firmaram no mercado, como a 1:54 em Londres, em 2013, e a AKKA em Paris, em 2016. Com isso, temos mais acesso às diferentes visões de um continente vasto e interessante.

Em 2015, o francês André Magnin foi curador de uma exposição importante na Fondation Cartier sobre arte congolesa. A exposição, bastante didática, começava com obras mais antigas, do início do século 20, fotografias históricas, até os artistas contemporâneos. Tudo entremeado por cabines de áudio onde tocavam músicas de diversos momentos do país, com suas traduções e explicações. Essa exposição abriu espaço para vários artistas africanos em galerias e centros culturais parisienses. Em 2017, podíamos encontrá-los na Fundação Louis Vuitton, na feira de arte de Paris, na Paris Photo, nas Galerias Lafayette e no la Villette. No início deste ano teve ainda o fotógrafo malinês Salick Sidibé expondo na mesma Fondation Cartier e o sul africano David Goldblatt com uma bela retrospectiva no Centre Pompidou. Vale lembrar que Sidibé foi o primeiro fotógrafo africano a ganhar o prestigioso prêmio Hasselblad em 2003.

Mas falar de uma arte africana é complicado, a África engloba 54 países com histórias e culturas diferentes. Fora do continente, a fotografia africana tem pouco espaço. Basta olhar para nós brasileiros, mesmo com toda a nossa conexão histórica, em geral temos uma certa dificuldade em acessar e às vezes também em entender o contexto dessas imagens. Uma boa exceção é a exposição Ex Africa que depois de rodar o Brasil está em cartaz até julho de 2018 no CCBB de São Paulo.

 Seydou Keita, sem título, 1950

Seydou Keita, sem título, 1950

Muitos artistas africanos contam histórias distantes da nossa realidade, que não conhecemos ou não compreendemos totalmente. Resumir essas diferentes narrativas é por demais simplicista e paternalista. Contudo podemos dizer que alguns temas perpassam os poucos fotógrafos que vemos por aqui, como o retrato e o documental. Através de personagens do dia-a-dia, os fotógrafos representam as complexidades históricas, sociais, econômicas e políticas que passaram, e passam, muitos países africanos.

Malick Sidibé, por exemplo, foi um fotógrafo atuante nos anos 60, com um trabalho forte de registro documental do cotidiano de Bamako e de sua vida noturna. Em sua exposição de janeiro na Fondation Cartier, podíamos ver toda a sociedade malinesa retratada, em preto e branco, em seu estúdio. Não havia diferença no olhar de Sidibé e todos passavam por suas lentes, fossem jovens ou velhos, pobres ou ricos. Com um olhar cúmplice, simples e direto, suas imagens testemunham da ebulição pós independência (o Mali foi colônia francesa até 1960) onde todos acreditavam no futuro, descobriam o presente e explodiam com projetos e sonhos. O país recriava sua identidade, e assim também faziam as imagens de Sidibé.

 Malick Sidibé, Batalha de amigos com pedras, 1976

Malick Sidibé, Batalha de amigos com pedras, 1976

 Malick Sidibé, Sem título, 1969

Malick Sidibé, Sem título, 1969

David Goldblatt também ganhou o prêmio Hasselblad em 2006. De origem sul africana, suas imagens denunciam o sistema político e econômico do apartheid. Com um olhar humanista, o fotógrafo passeia pelas diferentes camadas da sociedade para escancarar as complexidades subjacentes do país. Mineiros, operários, moradores da comunidade negra do Soweto, colonos, todos são fotografados de maneira direta, quase brutal, escancarando os hábitos de um país em constante mudança. A retrospectiva do Centre Pompidou apresenta imagens do início de sua carreira, nos anos 50, até hoje, acompanhadas de vídeos do próprio artista descrevendo o contexto da imagem. Essa dobradinha, palavra e imagem, nos ajuda a entender e nos relacionar com as bases de uma fotografia ainda em descobrimento.

 David Goldblatt, Soweto, 1972

David Goldblatt, Soweto, 1972


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Ioana Mello é carioca, mora em Paris e desde sua formação dedicou-se a imagem e suas diferentes relações em nossa sociedade. É sobretudo uma apaixonada por fotografia trabalhando a mídia em festivais, galerias, salas de aula ou escrevendo em seu site photolimits.com

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Ana DallozComment