Cruzando Fronteiras - Mariana Rondón

Por Joana Mazza

  “Llegaste con la Brisa /   Você chegou com a Brisa" - Uma leitura do pós-orgânico na obra de Mariana Rondón

“Llegaste con la Brisa / Você chegou com a Brisa" - Uma leitura do pós-orgânico na obra de Mariana Rondón

O corpo humano, em sua antiga configuração biológica, estaria se tornando obsoleto. Intimidados pelas pressões de um meio ambiente amalgamado com o artifício, os corpos contemporâneos não conseguem fugir das tiranias (e das delícias) do upgrade. Um novo imperativo é internalizado, num jogo espiralado que mistura prazeres, saberes e poderes: o desejo de atingir a compatibilidade total com o tecnocosmos digitalizado. Para efetivar tal sonho é necessário recorrer à atualização tecnológica permanente: impõem-se, assim, os rituais do auto-upgrade cotidiano (Sibilia, 2002, p. 13).

O conceito do homem pós-orgânico apresentado no texto de Paula Sibilia publicado inicialmente em 2002 foi um instrumento importante para desvendar algumas das questões identificadas na obra “Llegaste con la Brisa” de Mariana Rondón. Não deve ser por acaso que ambas obras foram inauguradas no mesmo ano, abordam sobre os questionamentos derivados das transformações sociais potencializadas em um mundo pós decifrações e alterações genéticas. Sibilia, assim como outros teóricos, busca fundamentar teorias sobre o que será da nossa sociedade após os avanços digitais e tecnológicos, onde o conceito do homem-máquina imortalizado por Charles Chaplin sofre uma total mutação e expansão, atingindo inclusive o conceito de “corpo humano”. Naturalmente estes questionamentos e as novas tecnologias não se aplicam somente ao humano, e é justamente na indefinida fronteira destes avanços que se instala a obra de Rondón.

O que estamos nos tornando? O que é que realmente queremos ser? São questões de alto conteúdo político, cujas respostas não devem ser deixadas ao acaso. (Sibilia, 2005, p. 13).

Eu comecei esta obra porque descobri um fato incomum e fascinante. Disseram-me que os geneticistas estavam criando laboratórios clandestinos onde não criavam clones humanos, mas sim seres mitológicos e me pareceu normal que aquele que o fez, em outros tempos, com escultura e pintura, agora o faz com a genética. Era somente uma alteração do suporte. Assim talvez a genética possa criar seres sublimes, imaginados e sonhados mil vezes pela humanidade. "Se fazer de Deus" é uma das tarefas da arte e talvez a genética possa se tornar uma arte no futuro. Claro, teremos que conviver com os acidentes e monstros que nascerão disso. A liberdade é perigosa e envolve muitos riscos, mas limitá-la é mais perigosa. (Rondón, 2018)

Gostaria de aproveitar a ocasião e relacionar a obra de Rondón com a última coluna onde apresento Ana Mendieta e sua série de obras Body-Earth Sculptures e o desenvolvimento de uma busca pelo útero matriz (mãe terra) e suas origens culturais.   Ambas estabelecem a relação da vida e da criação com um útero metafórico, dissociado do próprio corpo, porém com propósitos finais absolutamente opostos. Ana Mendieta associa a arte com a arqueologia, geografia e história, projetando uma leitura sobre a origem e o seu passado enquanto Mariana Rondón associa a arte com a ciência, tecnologia e biogenética, projetando uma leitura para um futuro coletivo.

Conheci o trabalho de Mariana Rondón e a instalação "Llegaste con la Brisa", apresentado por Simone Rodrigues alguns anos atrás (pretendíamos trazê-la para expor no Rio), desde então desejo ver a instalação ao vivo, mas como infelizmente ainda não ocorreu, esta coluna está baseada na leitura do material disponível no site da autora, incluindo a evolução das distintas versões da instalação desde 2002 até sua versão mais recentemente de 2011.

Enquanto meu trabalho no cinema e nas artes é muito político, nunca foi minha primeira intuição com “Llegaste con la Brisa”. Eu trabalhei 10 anos neste projeto tentando obter instantes de 12 segundos (é o tempo que dura a bolha) que fossem capazes de emocionar o espectador. Eu estudei eletrônica, química e a resistência de materiais, assim tudo o que era estranho para mim se converteu na porta de entrada para a emoção de criar um laboratório de imagens, simulando vida em seu interior. (Rondón, 2018)

Projetando internamente o que seria a experiência de estar diante da instalação real, me atrevo a sugerir que a primeira sensação é uma vivência um tanto mágica e poética por estar em um ambiente uterino, húmido e envolvente. A isto se soma a experiência de ser testemunha do surgimento da vida, da morte e da transmutação. Sem dúvida trata-se de uma experiência que mistura visão, tato, audição e olfato. A umidade, o vapor, o cheiro do sabão, o som da água, o som ao estourar as bolhas de sabão, o som dos robôs, tudo isso conta para a percepção do trabalho. Entretanto para esta análise, devo considerar que algumas das percepções possíveis são substituídas pela complementação dos vídeos de produção da obra, reforçando o aspecto de laboratório, seja de biogenética imaginária ou seja de robótica experimental.

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Quais são as formas humanas que são estimuladas atualmente? Uma das respostas possíveis é simples, embora suas arestas sejam muito complexas: são aquelas modalidades que melhor se adaptam aos circuitos integrados do capitalismo global, aquelas que nossa sociedade precisa para poder funcionar corretamente. Ou seja: aqueles tipos humanos que propiciam sua reprodução opulenta e complacente, reduzindo ao mínimo a produção de bugs e falhas de qualquer índole (Sibilia, 2005, p. 262).

A artificialidade social assim como a busca da perfeição no campo genético, apresentada por Sibilia, são possíveis bases para compor um cenário que mescla fascinação com medo, alimentos perfeitos para um imaginário de ficção científica. Entretanto, ao contrário de uma previsão de futuro, estes elementos são parte de um contexto contemporâneo. Nesse sentido, se contextualizarmos a obra de Rondón como Ficção Científica, o próprio termo deveria ser redimensionado para a visão de presente, ou com sorte, de um futuro próximo.  Sem dúvida a instalação dialoga com o cinema, sobretudo com a obra de George Méliès, deste autor vemos muitas coisas em comum, seja o trabalho sobre a ilusão, a criação de engenhos próprios para sua obra, o diálogo com um teatro tecnológico, até as projeções curtas, que no caso de Rondón existe somente no tempo de vida de cada bolha de sabão.

 Esta instalação trabalha no campo da experiência do observador, está ambientada de forma que o espectador faz parte deste laboratório, talvez como um científico, observando os milagres da vida em telescópios-bolhas. Mas este laboratório é um corpo, ele é composto de órgãos vitais, representados pelos úteros bolhas e seus fluidos, e pela sua extensão tecnológica representados pelos robôs e pelos projetores. Assim o espectador ao entrar na instalação, entra de fato dentro deste corpo, um corpo expandido e pós-orgânico.

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Entretanto sem dúvida um dos grandes desafios desta obra e da autora se refere ao país de origem, a Venezuela, onde teve sua liberdade de circulação tolhida e não é possível fazê-la ser exposta novamente. Talvez os monstros refletidos nos úteros-bolhas sejam um espelho do que se tornou o país, de onde continuamente repercute acerca de distintos casos de violações, como é o caso do artigo 3° da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Assim, de alguma forma sua obra necessita ser apoiada e ser impulsionada a voltar a existir e seguir criando e recriando suas vidas imaginárias e povoar nosso imaginário com suas infinitas possibilidades.


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Joana Mazza é curadora, produtora cultural, artista, especialista em fotografia latino-americana. Atualmente está cursando o mestrado em arte, pensamento e cultura latino americano no instituto de estudos avançados IDEA da Universidade de Santiago do Chile. É formada em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ e pós graduada em fotografia pela Universidade Candido Mendes. Entre suas principais atividades destacam-se a coordenação de exposições do FotoRio (edições de 2003 a 2009), a coordenação do Programa Imagens do Povo (2010 a 1003) e da Escola de Fotógrafos Populares de 2012 (Observatório de Favelas), e como curadora assistente no MAC de Niterói (2013 a 2015).

Ana DallozComment