Cruzando Fronteiras – Uma análise sobre a representação da mulher negra nas obras de Victoria Santa Cruz e Fabian Villegas

Por Joana Mazza

Nesta segunda coluna para o Ateliê Oriente, faço continuidade a proposta de pensar linhas de pensamento artísticos e culturais dentro do âmbito da América Latina e apresento a leitura de duas obras que partem do questionamento sobre o que é ser mulher negra na América Latina e o que isso representa comparativamente entre os anos 70 e hoje. O primeiro vídeo a analisar é um registro da performance de Victoria Santa Cruz “Me gritaron negra” (Gritaram-me negra).

Victoria Santa Cruz (Perú) é referência quando se fala em folclore, teatro e cultura negra. No caso do vídeo Gritaram-me negra podemos considerar que se trata de poesia, performance, teatro, folclore, dança além de outras distintas linguagens emaranhadas. O vídeo apresenta uma cena que remete a obra de Rugendas – “Jogar Capoeira” (1835), apresentando negros em um pátio colonial, no jogo entre dança e luta característico da capoeira. Essa referência não é ocasional, creio eu, considerando que a produção e realização do vídeo é feita pela companhia dinamarquesa Odin Teatret, em 1978. De uma certa forma, esse olhar estrangeiro - em alguma medida colonizador - está presente nesta obra, inclusive o poema é declamado quase em toda a totalidade para alguém que não são os espectadores do vídeo, é direcionado a um público que está na cena, fora do recorte da tela, como na imagem de Rugendas.

Entretanto essa poesia-grito de Victoria é suficientemente forte para nos determos diretamente em seu conteúdo conflitivo, reforçado pelo movimento dos corpos que compõe a cena. A narrativa inicia a partir da compreensão que ser identificado como negro é um insulto, desenvolvendo a narrativa para a descoberta do que significa o preconceito, caminha em direção ao entendimento que sua natureza não pode ser alterada e por fim torna-se uma afirmação e um reconhecimento de identidade. É importante frisar que Victoria não está só neste discurso, sua fala ecoa entre os que estão ao seu redor, reforçando a ideia de um movimento cultural.

Certamente a base para este movimento cultural está presente no livro “Pele negra – máscaras brancas” (1952), de Frantz Fanon (Martinica), cuja introdução eu apresento abaixo por reconhecer - infelizmente - seu caráter ainda contemporâneo: *¹

“A explosão não vai acontecer hoje. Ainda é muito cedo... ou tarde demais.

Não venho armado de verdades decisivas.

Minha consciência não é dotada de fulgurâncias essenciais.

Entretanto, com toda a serenidade, penso que é bom que certas coisas sejam ditas.

Essas coisas, vou dizê-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o grito não faz mais parte de minha vida.

Faz tanto tempo... Por que escrever esta obra? Ninguém a solicitou.

E muito menos aqueles a quem ela se destina.

E então? Então, calmamente, respondo que há imbecis demais neste mundo. E já que o digo, vou tentar prová-lo.

Em direção a um novo humanismo...

À compreensão dos homens...

Nossos irmãos de cor...

Creio em ti, Homem...

O preconceito de raça...

Compreender e amar...”

Quando digo infelizmente, naturalmente estou me referindo a minha opinião, ou melhor, o meu desejo de que no futuro a questão racial e de gênero não sejam mais uma questão, desejando que as condições de vida e sociais sejam equivalentes para todos nós. Lamentavelmente tenho que reconhecer que isso é um romantismo utópico, apesar de que não é possível aceitar que basta crer que se trata de uma utopia e nada fazer, simplesmente. Por isso evoco o pensamento de Castoriades e proponho uma linha de raciocínio e pensar a cultura e o campo da arte como forma de transformação social a partir da transformação do imaginário social, partindo do pressuposto que podemos recriar a nossa realidade aprofundando nossos discursos e questionamentos e reconhecendo os pontos que necessitam ser transformados. *²

Voltando a análise, apresento o vídeo de divulgação do recente livro do escritor Fabián Villegas (México) em espanhol:

Ao contrário do primeiro, este vídeo apresenta seu personagem principal de uma forma humanizada através de cenas cotidianas representativas de uma vida urbana contemporânea, como fazendo esporte, indo ao dentista e cortando o cabelo. O poema de Fabián é recitado ao fundo, remetendo um processo do RAP e mais uma vez marcando a contemporaneidade da questão. Aqui ela nos olha de frente (espectadores do vídeo), mas não é ela quem fala, a voz vem de fundo. Me pergunto se essa voz estaria de alguma forma ecoando sistematicamente no consciente ou inconsciente de todos nós desde os tempos de colônia.

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O discurso apresentado, entretanto, se relaciona diretamente ao primeiro vídeo, com a busca do entendimento do que significa ser negra e os conflitos envolvidos como o exotismo, o erotismo, a exploração, os traumas e culminando por fim na formação de uma identidade afirmativa.

Recorri ao texto “O que é o negro na cultura popular negra?” de Stuart Hall (Jamaica)*³ para entender o porquê da aproximação destas duas obras e o quanto elas podem representar efetivamente o que é “ser negra” dentro da cultura negra. Através das palavras de Stuart entendemos que a cultura negra se trata de um campo de contradições e controvérsias, mas sem dúvida ele destaca a expressividade, a musicalidade e a oralidade como importantes chaves para a construção de novas representações e discursos. Entretanto também levanta alguns questionamentos, entre eles o uso do corpo como capital único e a auto representação como principal meio de expressão. Está claro ao longo do texto que é necessário ir além e apresentar as políticas culturais individuais.

 Aparentemente as fronteiras geográficas que os distanciam entre si e entre nós brasileiros não deixam qualquer rastro significativo, e para encerrar, entendo que o vídeo de Fabian Villegas reafirma a contemporaneidade do discurso de Victoria Santa Cruz, ao mesmo tempo que ambos questionam a imagem construída com relação ao negro desde o tempo de colônia.

Livro ABECEDARIO Corporal do Colonialismo de Fabian Villegas, editora Contra Narrativas México, 2017.

Fragmento traduzido do conto “Museu de História Natural”

De acordo com qual definição estúpida tenho que me reconhecer como negra no México, como mexicana, como negra mexicana, como negra a seco.

A identificação racial neste país é uma metáfora do processo de depuração do açúcar, o açúcar branco é refinado e se considera melhor por que tem um processo mais longo de depuração enquanto que o açúcar moreno tem menos qualidade por quê atravessa por menos passos do processo. Todas as representações e mitos que tinha da negritude mexicana desde que nasci tem sido totalmente violenta.

Negras confinadas nas cozinhas das fazendas coloniais, negras peleando nas cozinhas, puxando o cabelo, jogando a frigideira e potes. Negras putas, putíssimas. Negras bruxas que escondem  grandes fogueiras em sua vagina. Negras domésticas que guardam segredos no chocolate. Negras ingênuas que comem banana e coco e falam um espanhol mastigado por que em lugar de dizer palmeira dizem palmera. Negras fugitivas, negras perseguidas, como essas de Mata Clara em Cuitláhuac, Veracruz que foram presas, confundidas com imigrantes centro-americanas. Negras sujas e asquerosas. Negras finas, lindas, afro mestiças. Negras ignorantes, emancipadas pela bondade de other ground Rainbow. Negras oprimidas, que desejam dormir na cama da senhora da casa. Negras que se odeiam, que se desprezam e são incapazes de sair com alguém mais negro que elas e, logicamente, apresenta-lo em casa. Negras de carnaval, bailarinas da caixa do marimbol ou da marímbula. Negras invisíveis. Negras de museu. Animais de vitrine para os etnógrafos e a antropologia. Negras esquizofrênicas que caminham descalças e confundindo os postos de guerreiro com a costa de Guinea.

Todos estes contos tive que escutar com a boca fechada e ainda hoje com a boca bem fechada tenho que os seguir comendo pelos antropólogos e negrófilos da academia, que vão de povoado em povoado a convencermos nos negras de que somos negras, limpandos os espelhos e buscando os tesouros por debaixo da terra. Fazendo etnografia de como comemos, como cagamos, como amamentamos, para encontrar os vestígios, a linha histórica de Oaxaca e Veracruz, com Angola e com Nigéria.

Escutem, pendurem seu colonialismo interno, seu exotismo, sua sexualidade colonial, suas patologias raciais nas publicações da academia. Eu não sou afro mexicana, não sou afro mestiça, eu sou negra, e nos traumas da história sou outra negra. Sou todas estas negras.

*¹ Fanon, Frantz. Pele negra, máscaras brancas / Frantz Fanon ; tradução de Renato da Silveira. – Salvador : EDUFBA, 2008 (texto original de 1952)

*² Castoriadis, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. 1975

*³ Sovik, Liv; Hall, Stuart. Da Diáspora: Identidades e medições culturais. 2003


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Joana Mazza é curadora, produtora cultural, artista, especialista em fotografia latino-americana. Atualmente está cursando o mestrado em arte, pensamento e cultura latino americano no instituto de estudos avançados IDEA da Universidade de Santiago do Chile. É formada em pintura pela Escola de Belas Artes da UFRJ e pós graduada em fotografia pela Universidade Candido Mendes. Entre suas principais atividades destacam-se a coordenação de exposições do FotoRio (edições de 2003 a 2009), a coordenação do Programa Imagens do Povo (2010 a 1003) e da Escola de Fotógrafos Populares de 2012 (Observatório de Favelas), e como curadora assistente no MAC de Niterói (2013 a 2015).

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Ana DallozComment